Vejam só quem voltou para casa!

31st maio 2017, author: EDUARDO_AMARAL

Cresci rasgando gibis no berço e com lápis de cor entre os dedos na infância. Dizem que minha arte foi herdada de minha mãe, premiada pintora impressionista. Mas minha ansiedade e minha necessidade de realizar tudo muito rápido não. Ela é calma, estudiosa, até hoje experimenta detalhes de luz e sombra em suas telas. Leva dias em um quadro. Eu não. Preciso finalizar tudo rapidamente ou nem começo. Nada a ver com fazer de qualquer jeito, pois também tenho uma certa obsessão pelo perfeito. Assim, fui auto orientado para a propaganda. Nos estúdios onde as criações eram demandadas por times notáveis (chefes de estúdio, artefinalistas, ‘layoutmen’, assistentes de arte, ilustradores), tive acesso fácil a novas técnicas de pintura, de ilustração, de colorização, de traços rápidos formando imagens que ostentavam mil palavras. Tudo na base do autodidatismo. Como profissional, dirigindo arte em um ambiente de desafios, prazos curtos e exigência de alta criatividade – um saudoso modelo de agência de propaganda -, tive de me virar para expressar e materializar minhas ideias em anúncios, catálogos, embalagens, marcas. A prancheta jorrava os layouts (representações ou simulações de uma peça gráfica) a cada 30 minutos. Esse era o dia a dia de trabalho.

Nos fins de semana, eu relaxava com pincéis, canetas especiais, grafite, ecoline, giz pastéis óleo e secos em mãos, fazendo experiências em papéis também especiais ou telas. Produzia alucinadamente, demandando minha fascinação pelo resultado final rápido conseguido. Inúmeras ilustrações ou quadros meus foram parar em paredes de amigos, de donos de agência, de parentes, de desconhecidos. Engraçado é que eu jamais tive preferência ou apego por qualquer obra minha. Sempre tive a impressão que lutava por realizar algo sempre melhor, mais emotivo, mais significativo, mais representativo. Então, nunca guardei nada do que produzi. Aliás, meu primeiro carro foi comprado assim: um cliente encomendou mais de 1 dezena de ilustrações para decorar um estande promocional em uma feira. Trabalho de 3 dias. Entreguei o trabalho sem olhar para trás. A produção frenética tinha de continuar.

Isso até 1987.

Em uma tarde de sábado, inspirado pelos ‘Concertos de Brandemburg’, de Johann Sebastian Bach, decidi investir na música. Em uma coleção de ilustrações de músicos e seus instrumentos, fundos coloridos de papel Carmen, mistura de técnicas e materiais. Oboé, flauta, violino, cello, tuba. O ponto alto: um maestro regendo, cabelos alucinados, expressão séria, concentrada, vivendo o momento, a música. Adorei o maestro. Lá estava ele, me ignorando em sua franca execução, olhos fechados.

Em uma semana, 8 ou 9 ilustrações estavam completamente enquadradas em sanduíche de vidro. A elegância do maestro contrastava com a simplicidade da escolha da moldura de alumínio. Pendurei-o em um local de honra em meu estúdio, sobre minha prancheta. Ele passaria a reger minhas próximas obras, sempre atendo e rígido com minhas novas escolhas e experiências. Aos sábados, às vezes domingos, compartilhávamos também a (boa) música clássica, sempre barroca.

Um dia em 1989, meu pai entra em meu estúdio dizendo que precisaria cobrir as paredes de um novo espaço – tinha fechado um acordo comercial com uma pizzaria no bairro nobre de Pacaembu, mas não disponha de quadros para decorar toda a casa (nesta época, meu pai comercializava obras de vários artistas iniciantes, expondo-os para venda em casas noturnas, restaurantes, churrascarias, etc). Olhou para a coleção de músicos que estava guardada atrás de uma estante e disse: “perfeito! o ambiente lá é moderno, bem contemporâneo, vai cair bem. Posso levar o maestro também? Há muito espaço livre lá!” Eu aceitei, com uma ordinária condição: “o maestro não está à venda, por preço nenhum!”. Combinamos. Ajudei-o a colocar tudo no carro e ele partiu para o Pacaembu.

Uma semana mais tarde trouxe-me um cheque gordo e um pedido de desculpas: “Edu, um cara insistiu muito, levou o maestro!” Caramba. Que triste. Acabei jurando ao amigo que tinha partido nunca mais colocar ninguém em seu lugar. Minhas audiências clássicas passariam a ser solitárias, e as novas experiências artísticas sem um regimento. Nunca mais soube do maestro ou dos outros músicos que acabaram partindo um a um, em um espaço de semanas.

Em 1994 apaixonei-me por uma italianinha mágica. Ela conseguiu trazer um outro tipo de música para minha alma artista. Em 1 ano estaríamos casados, começando essa aventura que dura até hoje. Fizemos uma cerimônia pra lá de tradicional, em uma basílica na Bela Vista. Distribuímos dezenas de convites para parentes e amigos. Como tudo se desenrolou meio rápido, era a oportunidade ideal para conhecermos as famílias dos dois lados. E foi assim, em abril ou maio de 1995, que tive o primeiro contato com um dos primos de minha noiva. Ele tinha acabado de se mudar para uma casa extraordinária na Granja Julieta, um bairro tranquilo e exclusivo da cidade. Fomos lá acompanhados pela mãe dele, para quem havíamos acabado de entregar o convite das bodas.

Sentamos em um sofá já posicionado numa ampla sala. Ao redor, caixas por abrir, móveis cobertos ou embalados. Uma bagunça organizada. Tomamos um café enquanto trocamos gentilezas e comentamos planos de futuro. Eu era o completo estranho ali. Estava entrando na ‘famiglia’, levaria embora a caçula de D. Lina. Para quebrar o gelo, D. Loretta, a ‘zia’, comentou com o filho: “Franco, o Edu é artista. Tem uma agência e pinta quadros. Por que você não mostra o seu preferido?” E, olhando pra mim, continuou, “Edu, o Franco tem muito bom gosto para quadros. O preferido ele adquiriu há bastante tempo, tem estilo moderno”.

Levantamos e eu segui o Franco pela sala até próximo a um piano. Ao lado, ainda no chão, perto de onde seria pendurado, apontou para um quadro moderno, mas com uma moldura clássica imponente. Pediu minha opinião. “Bonito”, respondi. Ele insistiu: “bonito? Veja a expressividade, parece que está vivo. Observe a técnica, o artista soube bem concentrar a emoção, apesar da simplicidade dos traços”. Ficamos lá, nós dois, olhando para o quadro no chão, enquanto eu sentia que o Franco estava ávido por mais adjetivos que fizessem jus ao seu preferido. Então, num misto de fuga e esclarecimento, me dirigi à Patrizia (minha noiva) e disse: “querida, lembra-se que comentei sobre um quadro que fiz e me arrependi de tê-lo perdido pra sempre?” Todas se levantaram e vieram até nós. Concluí: “pois é. Aqui está ele!”. Aturdido, Franco quis saber: “como assim?” Mostrei-lhe minha assinatura e contei toda a história. Quer dizer, surrealmente, em uma probabilidade infinitesimal, uma parte de mim já estava na ‘famiglia’ há muito tempo!

Casei-me.

Passaram-se duas décadas. Em algumas oportunidades de comemoração – aniversários, encontros entre primos, etc, – pude namorar o maestro e matar a saudade. Franco mudou-se algumas vezes, mas sempre manteve o regente em local de destaque em suas casas. Um dia, propôs: “Edu, pinte uma marina para mim e eu lhe devolvo o maestro”. Opa! Aí estava uma ótima oportunidade de desfazer aquele mal entendido. Sempre declinei. O maestro representava tudo de bom que alguém poderia sentir por uma obra minha. Nunca soube de ninguém que tivesse dado tanto valor emocional às minhas pinceladas e rabiscos. E o Franco era seu máximo expoente. Achei que ele deveria, então, ficar com o quadro.

No fim do ano passado, época do natal, recebemos um convite do Franco e sua esposa. Tomar um vinho, degustar uma boa ‘pasta’ e dar risadas juntos. Foi ótimo até certo ponto. Depois disso, foi surpreendente, mágico. Embrulhado e estrategicamente escondido atrás de uma cadeira, o casal anunciou um presente para mim. Decidiram, rememorando e avaliando toda a história, que o maestro deveria voltar pra casa. Minha casa.

Não preciso dizer o quão feliz eu fiquei. Hoje, alguns meses depois, ainda ensaio minhas mãos para produzir uma outra obra à altura da generosidade de Franco e Katia. Eles agora desejam um outro tema, outro motivo. Mas que também será produzido com música da melhor qualidade.