Felicidade e futuro nas empresas

21st mar 2016, author: EDUARDO_AMARAL

Esses dias eu provoquei alguns amigos a avaliarem os conteúdos recentes que publiquei e fui surpreendido positivamente. No julgamento de ótimas pessoas e grandes profissionais que tenho na mais alta conta, acho que não me saí mal. Fui bem avaliado por todos, o que me deixa engrandecido, e despertei algumas discussões interessantes que trago para você.

Por exemplo, em ‘A Felicidade nas Empresas’, destaquei que no ambiente corporativo a meritocracia pode ser um dos vetores da infelicidade, pois funcionários e colaboradores são hipermotivados à competição, ao melhor desempenho, ao atingimento de metas a qualquer custo e também aos disputados planos de carreira. Um processo no qual o profissional que se mostra melhor, mais bem preparado, mais engajado, será aquele que ascenderá aos cargos cujos salários e benefícios proporcionam status e uma almejada qualidade de vida.

Esse é um processo que, por sua natureza, antagoniza com o medo, com a frustração e o estresse, deixando as pessoas cada vez mais vulneráveis. Em análise superficial, trata-se de um funil. Muitas pessoas disputando cargos escassos e benefícios ligados aos resultados.

Pela perspectiva de alguns dos meus amigos, desafios, metas e meritocracia carregam um aspecto positivo das relações, e também de justiça! A lógica simples é de que pessoas mais engajadas merecem realmente ser premiadas e alcançar seus horizontes internos na corporação. Eu concordo, há um lado bastante positivo em se obter resultados através de estímulos reais e o “obter por merecimento” aponta para o justo.

Mas esta é uma visão bastante cartesiana, fragmentada, diminuída do assunto. É a resolução de questões inerentes à vida das empresas, ao dia a dia, às suas implicações diretas. Mas o que acontece se aumentarmos essa diminuta perspectiva? Será que esse modelo atual poderá vigorar por muito mais tempo diante das necessidades prementes da sociedade, do mundo? Vamos ampliar o panorama para estender novamente a discussão?

Todas as grandes corporações modernas têm modelos ocidentalizados. Até as grandes empresas orientais replicam o que aparentemente é este modelo de sucesso. No mundo globalizado, as corporações são as “condutoras”, e o objetivo final é um hipotético desenvolvimento humano sob todas as perspectivas. E a ideia que fazemos de desenvolvimento implica em indicadores de crescimento, de lucros, de forma mensurável. É todo um discurso que faz fronteira com a noção enevoada que temos de civilização e de possibilidades futuras.

Podemos chamar isso de sociocentrismo ocidental: o mundo todo gravita no conceito de que modelos sociais de países desenvolvidos são objeto de desejo dos países subdesenvolvidos. E já que o momento global é por discutir a sustentabilidade, que economicamente falando é um freio necessário à produção desenfreada, por que não passarmos também a questionar esses valores ocidentais de desenvolvimento, que são, tecnicamente, a origem dos problemas do mundo contemporâneo?

O desenvolvimento quando é visto pelo filtro puramente econômico ignora o que não é palpável, mensurável ou calculável. Ou seja, os próprios atributos humanos – viver, sofrer, amar, legar. A medida da satisfação baseada na produtividade, no lucro, no que é quantitativo, acaba por atropelar o qualitativo. Atropela qualidades como solidariedade, humanidade, o potencial ainda não descoberto das habilidades humanas, a heterogeneidade, a própria qualidade DA VIDA!

Por onde então começamos? Se a gigantesca roda da economia mundial não pode ser simplesmente freada para ser repensada, revista e reinventada, se a base da economia mundial é sustentar famílias, sociedades inteiras, nações que interagem e se posicionam através da balança comercial, qual o sentido de uma discussão dessas?

Eu modestamente enxergo um redesenho, iniciando pelas bases. E nas bases econômicas globais estão as empresas. Se traçarmos um eixo de similaridades, as nações também lutam por um espaço no topo de uma pirâmide. No geral, todas seguem um modelo de desenvolvimento interno baseado na competição, na produtividade, nos resultados. Lutam para melhorar seus indicadores IDH, e isso é feito através da força de suas economias.

Você já ouviu falar de FIB? Felicidade Interna Bruta? Criado pelo rei do Butão, em 1972, o índice FIB é baseado na premissa de que o objetivo principal de uma sociedade não deve ser somente o crescimento econômico, mas a integração do desenvolvimento material com o psicológico, o cultural e o espiritual, sempre em harmonia com o planeta e seus recursos.

Em outras palavras, baseia-se no princípio de que o verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade surge quando o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento material são simultâneos, assim, se complementando e se reforçando mutuamente.

Que paralelos podemos traçar desta ampla proposta do FIB com a singularidade das empresas? Podemos destacar alguns pontos, desde que eles possam se adequar à cultura empresarial, como por exemplo, estabelecer a Boa Governança (isto tecnicamente já está sendo praticado no topo da pirâmide das corporações, por uma pequena parcela do todo).

Pensando de forma local, as empresas devem promover mais fortemente ações de desenvolvimento educacional para a inclusão social nas comunidades, assim como preservar e promover os valores culturais também locais. Ao meu ver, devem observar fortemente a resiliência ecológica na base do desenvolvimento sustentável e preservar os valores capazes de garantirem uma vitalidade comunitária. Neste quesito, as empresas devem aprender a trabalhar o ponto de restabelecimento do equilíbrio nos ecossistemas em que atua ou interage. No lado humano interno, as empresas podem diminuir a jornada de trabalho com o objetivo de promover o tempo livre e o lazer.

Tudo isso tem a ver com a cultura empresarial. Com sua visão, com seus valores, com sua missão. Com seus objetivos declarados e não declarados.

Há algo muito errado que todos nós estamos praticando, na forma como estamos vivendo. Quanto mais avançamos tecnicamente, mais as diferenças se acentuam. O desenvolvimento tem trazido progressos científicos, médicos, sociais, tecnológicos, extraordinários, mas está acelerando a degradação da ecosfera, promovendo a dissolução de valores culturais, criando novos modelos de servidão substituindo as antigas escravidões. Está destruindo o planeta e seus habitantes.

O momento é de repensar. De repensar pequeno, não precisa ser algo para todo o planeta. Podemos começar pelas empresas. Qualquer pessoa pode ser o estopim da mudança. Qualquer profissional pode recriar o modelo empresarial vigente e propor uma substituição que faça sentido, que seja mais humana e menos cartesiana. E eu acho que você pode ser essa pessoa. Pense a respeito.