A (des)conexão entre sucesso e espiritualidade

20th set 2016, author: EDUARDO_AMARAL

Tenho percebido uma tendência em se associar o sucesso de um profissional ou empresário à qualidade de sua “espiritualidade”, seu “grau de evolução”, suas “motivações mais elevadas”. Essas pessoas são verdadeiramente especiais? Alguém passa a ter sucesso por conta de suas qualidades interiores ou as adquire após chegarem ao patamar de sucesso inequívoco? Há realmente uma ligação orgânica entre sucesso e espiritualidade?

Não foi só Oprah Winfrey que ressaltou o caráter compassivo de Jeff Weiner, mas há uma literatura nacional apontando alguns de nossos CEOs tupiniquins como seres “iluminados”, diferentes, portanto, de nós, mortais. Tiveram uma vida dedicada aos negócios que deu certo, e assim os transformou. São frutos de uma lapidação preciosa que lhes conferiu facetas de coragem, empreendedorismo, liderança, carisma, inteligência, visão amplificada e … compaixão. Aliás, o hábito de se doar vultosas quantias de dinheiro à caridade ainda não pegou muito por aqui. Nos Estados Unidos e Europa, bilionários doam com frequência, alguns até dedicam suas fortunas inteiras. Isto lhes rende uma evolução espiritual? Ou a regra é exatamente o contrário? Pessoas evoluídas espiritualmente acabam tendo sucesso em algum momento da vida? Mas o que exatamente é sucesso?

A verdade é que ninguém entende o sucesso. É um estado caracterizado pelo êxito, pelo triunfo. Muitos têm sucesso em somente algumas empreitadas, mas não conseguem replicá-lo e sustentá-lo em todos os aspectos de sua vida profissional e pessoal. É um “sucesso parcial”, insuficiente para criar a marca indelével de vitorioso. Mas também ninguém entende a espiritualidade. É um estado caracterizado pela transcendência, pela sublimidade interna. É uma condição impossível de se medir. Talvez uma pesquisa ampla em todos os estratos sociais possa apontar uma correspondência entre sucesso e espiritualidade, mas até lá será impossível associá-los, concorda ou não?

Em minha vida me deparei com todo tipo de gente. Algumas espiritualizadas, verdadeiramente. São pessoas reconhecíveis por suas atitudes silenciosas e respeitosas. Pessoas que não criam vínculos artificiais de nenhum tipo, que possuem uma percepção crítica da realidade, que por isso gera ações profundamente responsáveis. São receptivas, abertas, autênticas, de ideias em aprimoramento contínuo. São naturalmente assim. E estão além da religião.

Também conheci muita gente de sucesso. São autoconfiantes. Em geral, têm algum tipo de obstinação e possuem um talento especial. Suas ações geralmente são controladas, planejadas e estão subordinadas a algum tipo de ambição. São fortemente motivadas por realizações, procuram manter o foco. As de sucesso sustentável mostram responsabilidade em suas ações, têm perfil de liderança e proatividade. Todas ocupam um pequeno espaço situado na ponta de uma pirâmide de base extensa e grande magnitude.

São dois perfis imiscíveis, mas que podem se superpor, sem dúvida. Com extraordinária raridade, encontrei pessoas assim. O que chama a atenção é o fato de que há 14 vezes mais referências de “sucesso” na internet que “espiritualidade” (no Google, são 160 milhões contra 12!), o que nos dá uma aproximada dimensão da importância associada a estes conceitos em nossa cultura ocidental.

A dissociação destes conceitos causa um incômodo. Principalmente nas pessoas de sucesso, cujas narrativas de vida elevam sua dedicação e foco em um objetivo sempre palpável, inteligível, popular, deixando em plano menor sua humanidade. Talvez seja um reflexo contínuo de suas próprias ações. Talvez seja o único reflexo que a sociedade enxergue. O fato é que criamos uma cultura em que o sucesso não pode se dissolver na espiritualidade e vice-versa.