Demissão: Dádiva ou Maldição?

21st mar 2016, author: EDUARDO_AMARAL

Tenho um amigo, profissional da área de planejamento em comunicação, excelente pessoa, determinado, inteligente, bem articulado. Iniciou sua carreira comigo, em um freelance que fizemos há mais de 30 anos, que o colocou apaixonadamente na propaganda. Foi profissional de atendimento em grandes agências, diretor de multinacional, gestor de projetos ‘cross-media’ em um grande grupo nacional de comunicação. Foi demitido. Recebeu todas as verbas rescisórias e se jogou otimistamente no mercado para uma recolocação.

Anos depois ainda não havia conseguido uma posição que espelhasse sua capacidade ou remunerasse suas competências. Em época recessiva, as possibilidades se reduzem ainda mais drasticamente. Um dia desses, segredou: “Edu, há muito tempo não sou feliz como nos primeiros anos de minha carreira! Nem mesmo quando ocupei altos postos. Ganhava bem, mas trabalhava como um lunático, repassando aos meus subalternos a pressão que o staff da corporação exercia em mim.” Isso é comum. Mais comum do que podemos constatar.

Eu, pessoalmente, acho isso morte espiritual, lenta, sufocante, paralisante. Você passa, ao fim das contas, 30 a 40 anos tolerando situações, tolhendo suas competências, habilidades, e, no melhor dos casos, vivendo as decisões erradas que tomou em algum momento por achar que isso seria seguro para você e sua família.

Se você também se sente assim, se percebe que a vida estacionou de alguma forma, desejo-lhe sorte. Desejo-lhe a sorte de ser demitido, a dádiva por alguém ter tomado a decisão por você, tornando impossível você continuar naquele suicídio lento e doloroso. Uma desistência forçada.

Se o desejo por vencer, por construir, por realizar ainda cintila de alguma forma em seu interior, você precisa estar apto a desistir das coisas que não funcionam em sua vida. Isso é fundamental para ser um vencedor. Abdicar disso tudo não é complexo. Pode parecer difícil, mas acho que é algo apenas “emocionalmente difícil”. Aquele medo de ficar pior do que está.

Vou lhe dizer: se as coisas estão no ponto de você reconhecer o fracasso de seus anseios, corte as amarras!

A demissão nunca é algo permanente. Sempre há uma saída, nem que seja tornar-se autônomo ou empresário de algum negócio simples. Numa etapa posterior, você planeja como recomeçar sua carreira da forma mais desejável.

Não se preocupe, você conseguirá pagar as contas. Pode também planejar ter um novo emprego antes de deixar o atual. Se você for demitido ou pular fora antes disso, elimine algumas despesas temporariamente e economize ao máximo. Deixe o carro em casa e cancele o seguro por algum tempo. Ande de ônibus e metrô. Passe a cozinhar em casa e evite os restaurantes. Venda o que for supérfluo. Se você tivesse que se desfazer de algo para pagar um tratamento de saúde, o que seria? Outra coisa: não se preocupe com o seu currículo! No período que estiver fora do mercado, procure fazer algo interessante, inspirador, que ajude a justificar a ausência, mesmo a experiência como pequeno empreendedor é bastante válida.

O mais importante disso tudo é recuperar o seu estado de espírito que lhe jogou no mercado no início de sua carreira. Temos a mania de envelhecer nossa mente no ritmo de nossa pele, cabelo e ossos, e isso não é verdadeiro. A mente não pode ficar fragilizada com o tempo, mas fortalecida. Como seres humanos temos várias virtudes, uma delas é adquirir autoconfiança nas ações alinhadas com nossos desejos íntimos. Precisamos manter a flexibilidade, a disciplina e a determinação. Ao final, o que parecia ser maldição é dádiva – a manifestação das suas forças, do seu verdadeiro eu, sua verdadeira nova chance de sucesso.