Aposentadoria: Sonho ou Pesadelo?

21st mar 2016, author: EDUARDO_AMARAL

Depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho, finalmente você poderá descansar. Seu corpo já não responde bem como em sua juventude, mas você acumulou o suficiente para uma velhice confortável – poderá curtir filhos e netos, amigos (os que restaram, lógico) viajar um pouco. É hora de se aposentar.

É isso? Só isso? Em algum lugar do passado, alguém definiu a aposentadoria como um desejo último, algo a se perseguir, como um troféu aos anos de trabalho duro, noites mal dormidas, desafios, obstáculos e um sem número de percalços. É exatamente isso: se aposenta quem trabalhou duramente, não aquele que fez o que sempre gostou. Para esses, a aposentadoria pode ser um tormento, um fim de vida, não o reinício. Conheci pessoas que voltaram à atividade depois de uma breve aposentadoria. Estavam cansadas de descansar. Outros voltaram ansiosos pelo movimento, pelas pessoas, pela sensação impagável de se sentirem úteis.

Meu sogro é um exemplo da mente que se superpõe ao corpo: aos quase 80 anos, sai de casa às 6 da manhã, em São Paulo, e vai administrar uma carteira e clientes em uma indústria onde trabalha, na cidade de Poá, a 50km de distância, preferindo metrô e trens ao seu automóvel. Diz que isso, o trabalho regular, o mantém saudável e com o espírito aguçado.

Mas, no fundo, a questão é outra. É a do sentido universal da vida. Depois de uma longa trajetória, chegamos ao fim de um ciclo imposto pela sociedade e também por nossa saúde. Talvez nosso corpo não esteja mais respondendo bem às exigências de sempre. Talvez estejamos contaminados pela ideia de que é necessário parar, já que todos o fazem, mas o verdadeiro medo é: como continuar uma vida positiva depois de subtrairmos o trabalho?

Como preenchermos esse vácuo? Não há uma fórmula pronta para isso.

Mas há um caminho: olhe para dentro e questione-se: estou feliz? Estou realizado? Fiz bem o meu papel? Construí algo, deixei um legado? Se a resposta for positiva, talvez essa seja a hora de descansar e aproveitar a vida de outra forma. Se a resposta for negativa, se houver alguma dúvida, ainda não jogue a toalha.

Na década de 1990 tive a oportunidade de conhecer um empresário chamado Girz Aronson. Um comerciante lituano que, no Brasil, ficou conhecido com o ‘Rei do varejo’. Começou sua primeira loja aos 28 anos, em São Paulo. Sua rede de eletrodomésticos, a G. Aronson, chegou a empregar mil funcionários e faturar 250 milhões de reais. Com a idade, não desacelerou. Chegou a afirmar a um jornal que morreria fazendo o que gosta, ou seja, trabalhar com o público.

Girz foi sequestrado aos 81 anos e passou 14 dias em cativeiro. Alguém poderia imaginar que bastava, que estava na hora de parar. Isso não aconteceu. Aos 82, sua rede de lojas cambaleou e faliu depois de duas concordatas. Enormes dívidas foram acumuladas no decorrer de uma década de instabilidades econômicas no país. Ele pagou o que devia a todos os seus funcionários.

Aos 83 anos, começou de novo. Uma pequena loja no centro da cidade. Chegou a ter três filiais. Parou aos 91 anos, pouco antes de falecer. Definitivamente, aposentadoria não fez parte do seu vocabulário.

Eu preferi discutir um pouco a questão existencial da aposentadoria, antes de apontar um problema grave que acomete todos os países pelo mundo, independente do modelo econômico de cada um. As projeções mais otimistas apontam a falência do sistema previdenciário, em escala global. Em um futuro próximo, não haverá dinheiro para pagar aposentados e pensionistas. Nos Estados Unidos, talvez isto ocorra a partir de 2030. Sim, o retrato é alarmante. No Brasil, falando individualmente, apenas 1% dos trabalhadores conseguem manter uma renda satisfatória com a aposentadoria. É fácil imaginar o que acontece com o nível de vida dos aposentados que pertenciam à faixa de maior poder aquisitivo quando estavam na ativa. A qualidade de vida simplesmente despenca.

Talvez essa perspectiva o ajude a planejar melhor um futuro produtivo. Talvez ela nos coloque todos contra a parede, forçando-nos a um plano incontornável de poupança, de acúmulo para a vida no futuro. Talvez seja um sinal para que você, assim como meu sogro ou Girz Aronson, passe a procurar fazer o que gosta, o que o motive, o realize, o faz sentir-se vivo, retirando a aposentadoria do seu vocabulário.