A Humanidade é Autoimune

06th abr 2016, author: EDUARDO_AMARAL

Por definição, a autoimunidade é uma falha funcional imunológica que produz uma reação contra o próprio corpo, atacando estruturas diversas. Nas doenças autoimunes, o sistema imunológico não consegue distinguir os antígenos dos tecidos saudáveis e acaba atacando e destruindo células normais do organismo. Suas causas são misteriosas, podem estar ligadas ao ambiente, à genética ou a um conjunto de fatores ainda desconhecidos.

Imagine a humanidade como um grande organismo. Somos um grande corpo sobrevivente. A forma distraída de como surgimos neste planeta, os desafios enfrentados logo no início da ocupação, com a falta de alimentos, as doenças, os inimigos naturais, tudo contradisse nossa insistência em crescer e nos multiplicar.

Entre todos os fatores mais desfavoráveis ao nosso sucesso há um absolutamente surpreendente. A própria humanidade. A humanidade é autoimune.

Nossa história é marcada por guerras sangrentas, por conquistas de territórios, por subjugo de cidades, regiões, de países inteiros, por civilizações que surgem e atingem seu esplendor e são substituídas por outras, sem deixar vestígios. Há uma explicação. Um sentido de autopreservação. Grupos humanos nômades lutaram entre si pela sobrevivência em ambientes com poucos recursos disponíveis. Foram cerca de 50.000 anos de uma prática intensa de lutas que provavelmente aderiu ao nosso código genético.

Isso não é só história. É presente. Está ocorrendo por todo o mundo, em cenários que vão do local ao continental, nas esferas econômicas e sociais. Facções criminosas lutam por poder em bairros contíguos, violência de toda espécie tem de ser permanentemente combatida nas cidades. Grandes grupamentos humanos fogem de guerras criadas em delírios religiosos, células terroristas espalham o câncer do medo, países disputam territórios supostamente estratégicos e sofrem sanções, outros recebem as mesmas penas por suas ideias.

Uma outra doença da humanidade que é virtualmente invisível, mas cujos efeitos criam ulcerações expostas, morais e econômicas, é a corrupção. Também ocorre em cenários locais aos continentais, nas esferas econômicas e sociais. Não é necessário descrevê-la e suas inúmeras facetas. Um tipo específico de corrupção podemos atribuir a outro traço genético, mutação hoje indesejável, fruto da adaptação natural. Em um período de 300.000 anos, a seletividade natural deu origem à mais eficiente máquina conhecida: o corpo humano. Durante o paleolítico, essencialmente de sobrevivência, de subsistência, o corpo teve de se adaptar à falta de alimentos. As famílias passavam dias às vezes sem comer. Assim, tudo o que era consumido deveria ser transformado em reservas para uso nos períodos mais difíceis, na forma de gordura corporal.

No mundo moderno e rico, pessoas ainda vivem a ilusão da falta de recursos e de períodos difíceis. Por isso, têm compulsão em acumular. Só que as gorduras corporais se travestem em contas bancárias. Por meios legais ou ilegais, algumas pessoas tendem a acumular riquezas compulsivamente. 1% da população mundial concentra 50% de toda a riqueza, como se isso fosse obra da seleção natural. É um pensamento de origem paleolítica, onde um instinto fisiológico assume o comando do todo poderoso cérebro e seu novo córtex ultra evoluído. Não faz sentido. Uma única pessoa, um dos mais ricos da atualidade, por exemplo, pode alimentar 220 mil famílias durante 80 longos anos. Enquanto isso, a fome no mundo atinge 800 milhões de pessoas.

Uma prova da autoimunidade humana são os documentos do escândalo “Panama Papers”, que escancaram a produção compulsiva de apenas 1% dos 1% mais ricos do mundo.

Outro aspecto dessa doença são as polarizações ideológicas. Esse antagonismo de sistema de ideias de grupos é outra manifestação tribal, provavelmente enraizado em nossos genes no período neolítico. Durante 10-15.000 anos, as pequenas populações começaram a se organizar e trabalhar em sistemas cooperativos. Por natureza, os mais fortes, mais aptos a defender os grupos se tornaram líderes. Durante os milênios subsequentes, achamos necessária e também natural a presença de autoridades que nos comandassem.

As lanças, flechas e músculos fortes foram sendo substituídos pelas ideias. E, da mesma forma, os grupos sociais se acostumaram a ser liderados por idealizadores, sem um apropriado e necessário questionamento. O que poderia explicar o silêncio de dezenas de milhões de alemães frente aos desmandos de alguns milhares de nazistas? Ou da passividade inquietante do povo soviético frente aos 20 milhões de mortos durante a implantação do regime comunista em larga escala por um pequeno grupo de dignitários lunáticos? Ou dos 65 milhões de chineses mortos durante a Revolução Cultural Proletária instituída por um simbólico grupo liderado pelo “Grande Timoneiro”?

No Brasil, uma nação ainda púbere, formada por sementes humanas dos cinco continentes, temos todos os exemplos das doenças autoimunes da humanidade. A razão pela qual não exercemos nosso direito de sobrepujar o código genético universal com a força de nossas capacidades cognitivas, de nosso poder questionador e solucionador, é um mistério. Talvez as enormes quantidades de exemplos de violência, de corrupção, de desequilíbrios e desigualdades sociais, de pragmatismos ideológicos anacrônicos emparelhados nos desmandos políticos, tenham causado esse torpor, certa apatia moral. Fruto de um amansamento condicionado naqueles 10 ou 15 mil anos do período neolítico.

Na autoimunidade, o corpo luta contra si mesmo. É dialético, contraditório, conflituoso. Deseja a vida, mas se enxerga como o próprio inimigo. A humanidade, idem.

Esta reflexão simplificada, talvez até exageradamente simplista, tem um objetivo claro: a necessidade de iniciarmos, todos, uma recodificação, nas esferas sociais e econômicas, do local ao continental.

Eu proponho pensarmos. Fora da caixa, dos limites pessoais, dos limites da história, dos limites da mesquinhez, dos limites do poder autocrático da classe política ególatra, dos limites genéticos. Procuremos todos a cura para a humanidade.

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